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Abel Manta (1888-1982)

Abel Manta, Clementina Carneiro de Moura, 1959 (?)

Nasce em 1888, em Gouveia. Morre em 1982, em Lisboa. Motivado pela ajuda da Condessa de Vinhó e Almedina, pintora e admiradora de “coisas da Arte”, Abel Manta vem para Lisboa em 1904 para frequentar a Escola de Belas-Artes, terminando o curso de Pintura em 1916. Três anos depois, em 1919, vai para Paris, onde participa em diversos salons , e onde tem a oportunidade de descobrir os artistas impressionistas e a obra de Cézanne, que iriam permanecer como a sua grande influência.

auto-retrato 1912

auto-retrato 1928

auto-retrato 1933

auto-retrato 1939

auto-retrato 1964

A escolha da representação de naturezas-mortas, juntamente com os retratos, confirma o interesse de Abel Manta pela análise paciente dos objectos na sua identidade natural e a atitude de submissão e fidelidade aos modelos. Chega mesmo a ser considerado como o melhor retratista do seu tempo, capaz de integrar a expressão psicológica do retratado num sistema plástico e pictórico coerente. A obra Jogo de Damas, de 1927, revela este seu pendor para a situação quase fotográfica de observação atenta de atitudes, figurando a sua mulher, a pintora Clementina Carneiro de Moura, concentrada sobre o xadrez do tabuleiro, distante no pensamento de um parceiro que se encontra à sua frente.

Representados numa perspectiva ligeiramente subida em relação ao plano da cena, apresentam tal quietismo que parece, ao espectador, estar perante a tensão da próxima jogada. Como na quase totalidade da sua obra, trata-se de uma reactualização dos valores construtivos e plásticos de Cézanne, a par de um gosto figurativo naturalista e de um sensualismo plástico que encontra na força expressiva da mancha a sua maior aliada. Esta atenção ao realismo da situação, à “fidelidade do visto”, pode ter sido passada a Abel Manta por um dos seus mestres, Columbano Bordalo Pinheiro, que o artista evoca, particularmente nas cenas de interior, nas atitudes e na escolha de momentos subtis.

Abel Manta, Jogo de Damas, 1927

Abel Manta, Largo de Camões, 1932

Abel Manta, Grupo do Consultório, 1955

Regressa a Portugal em 1926, para se dedicar ao ensino técnico, como professor de Desenho na Escola de Artes Decorativas António Arroio, nunca abdicando, no entanto, da sua carreira artística. Participa em exposições da SNBA desde 1913 e nos salões do SPN/SNI, organismo que em 1942 lhe atribuiu o “Prémio Silva Porto”.

Nas suas vistas de Lisboa esse pendor naturalista torna-se mais evidente, sempre sensível à atmosfera e à estrutura da cidade, fornecendo imagens fiéis, que, pela escolha de motivo ou pelo ângulo da tomada da vista, se tornam um pouco inesperadas, como acontece na Praça de Camões, de 1954. Nestas vistas urbanas, de clara inspiração impressionista, está sempre presente a agitação da vida quotidiana, em que as figuras humanas surgem na representação como pequenas silhuetas, servindo apenas para pontuar o espaço e fornecer a noção de escala necessária.

Este gosto pela observação junta-se ao prazer da tertúlia de café, mais precisamente de A Brasileira do Chiado, que, junto a esta praça, se afirmava como o ponto de confluência de artistas que discutiam o panorama artístico e de uma Lisboa que, longe de ser cosmopolita, encontrava nesta zona um sinal de progresso e mudança dos tempos. A memória das tertúlias ficou inscrita na sua pintura Tertúlia de Pulido Valente (1955).

Nas intervenções para o Estado, destacam-se as suas decorações para os pavilhões portugueses nas exposições de Sevilha (1929), a Exposição Colonial de Paris (1931), a Exposição de Artes e Técnicas da Vida Moderna (1937) e os cartões de vitrais para a nave lateral da Igreja dos Jerónimos (1935) e para a escadaria do Instituto Nacional de Estatística em Lisboa (1933). Em 1957, é-lhe atribuído o “1.º Prémio de Pintura da Fundação Calouste Gulbenkian”.

Tal como acontece com Dórdio Gomes, com quem expõe em 1965, a obra de Abel Manta caracteriza-se como “tradicionalista” para uns e “moderna” para outros. Para o pintor, pouco sentido faria esta querela, desenvolvendo à margem de qualquer vanguardismo e, todavia, de qualquer academismo, um percurso sincero para consigo mesmo, sem algum compromisso estético, ficando assim como o único pintor de ofício daquele tempo, ou melhor, como o único pintor-pintor, como o seu Auto-Retrato de 1933 tão singularmente dá a ver.

CARLA MENDES, www.camjap.gulbenkian.pt

Abel Manta, Vista de Gouveia, 1925

Clementina Moura, Vista de Gouveia, 1964

Clementina Carneiro de Moura (1898 – 1992)

Nasceu em Lisboa em 1898, onde morreu em 1992. Foi aluna do Mestre Columbano Bordalo Pinheiro e também colega de Sara Afonso. Concluiu o curso de pintura da Escola de Belas Artes de Lisboa em 1920. Casou com o pintor Abel Manta em 1927. O seu filho, o arquitecto e “cartoonista” João Abel Manta, nasceu em 1928.

Foi uma artista de grande sensibilidade estética e plástica, com uma obra diversificada, que se repartiu pelo desenho, pintura, assim como pelo estudo e investigação das artes têxteis portuguesas.

Da sua obra plástica sobressaem retratos, paisagens, naturezas-mortas, registos de objectos do quotidiano, imagens das suas referências e vivências familiares. A sua pintura é o reflexo de uma grande sensibilidade e da serenidade com que encarava o mundo que a rodeava.

Foi uma artista com grande capacidade intelectual e que se identificou com os problemas culturais e sociais da sua época, participando em movimentos políticos.

Especialista nas Artes Aplicadas aos Tecidos, ficou conhecida como “a mestre do Patchwork”. Sobretudo a partir dos anos 70 dedicou-se à criação de trabalhos nessa técnica.

Foi autora de livros que ajudaram a promover o gosto e favoreceram o conhecimento no âmbito da cultura e promoção da história e das técnicas dos têxteis portugueses. São da sua autoria as seguintes publicações: ”Bordados tradicionais de Portugal”, Livro Âncora de Bordados, nº1, edição da Companhia de linhas Coats and Clark Lda, Porto; “O Desenho e as Oficinas no Curso de Formação Feminina”, edição do Boletim Escolas Técnicas, da D.G. do Ensino Técnico Profissional. Lisboa, 1962; ”As Colchas de Castelo Branco e o «Bordado»”, Mocidade Portuguesa Feminina, Lisboa, 1966.

Dedicou-se também ao Ensino Técnico, tendo sido professora nas escolas Afonso Domingues, Machado de Castro e Josefa de Óbidos. Nesta escola o seu trabalho ficou registado e mantido através do espólio, que, com outras professoras e alunas, ajudou a criar, ao longo de vários anos. Também aqui a sua imagem ficou gravada na memória e no património, através do retrato que o seu marido pintou.